terça-feira, 24 de setembro de 2013

ALMINHAS DO COLMEAL (parte 2)


COLMEAL

- Alminhas, situadas no Torgal, na berma da estrada que liga Colmeal a Góis, por baixo da capela do Senhor da Amargura. Foram construídas em 1984 ou 1985, por José Nunes, natural da Cabreira e residente em Góis, em cumprimento de promessa de sua esposa Ana Maria Alves Nunes, natural de Colmeal. São em forma de oratório, com a estrutura e o telhado em xisto. Este é sustentado por uns tubos na vertical, que também aparecem nas alminhas da Foz da Cova, Malhada e Soito.

O painel em azulejo representa a imagem de Nossa Senhora de Fátima com os pastorinhos em oração e ovelhas a pastarem.

Representando devoção e agradecimento, trata-se de umas alminhas na forma e na apresentação, mas que não radicam no culto dos mortos. “Tinha dezassete anos, quando fiz a promessa, nessa altura não pensava na morte.” (Ana Maria).



 - No Colmeal, existiram outras alminhas. Por exemplo na Eira, onde foram demolidas com a construção da Casa Paroquial. Seriam um oratório em xisto com um pequeno nicho e um painel em madeira que tinha as almas do Purgatório. No caminho para o Carvalhal, logo depois da travessia do rio, num sítio chamado Riqueijo, existiram outras em forma de capela ou alpendre, que terão desaparecido com um incêndio. Também à Ponte, existiram umas que eram uma cruz em ferro espetada na rocha. Lembravam um rapaz do Carvalhal que veio ao moinho, e que se afogou ao tomar banho no rio Ceira, enquanto esperava que o milho moesse.


FOZ DA COVA

Alminhas em forma de oratório, situadas na estrada para a Malhada, na cortada para o lugar, num sítio chamado Entrecaminhos ou Barroca das Almas. Foram mandadas construir por José Baeta, da Malhada, haverá uns catorze anos, próximo do sítio onde terão existido umas outras, mandadas construir por José Maria, da Foz da Cova, haverá uns setenta anos. Numa outra versão, terão sido por familiares, quando José Maria faleceu.

O painel em azulejo representa o Anjo da Guarda, a proteger duas crianças e um cordeirinho. A menina leva um ramo de flores, o rapaz não consegui identificar o que leva na mão.





 MALHADA

- Alminhas em forma de oratório, situadas no largo da terra, junto ao lavadouro e outros edifícios públicos. Foram mandadas construir por Celeste dos Santos haverá vinte e cinco ou trinta anos, em cumprimento de promessa de um familiar que faleceu sem a ter cumprido. “Lá foi algures, e aconselharam-na a fazê-las …” (Aurora).

O painel em azulejo mostra Cristo na cruz, com as alminhas nas chamas, em baixo. O desenho é muito simples, parecendo Cristo apenas um esboço. Apresenta a particularidade de ser quadrado e não retangular como a maioria, e de ser em azul, e não nas tradicionais cores vivas. É também o único painel, no conjunto de as alminhas que visitámos, em que o apelo à oração aparece por extenso: “Pai Nosso, Avé Maria”. Apelo esse que é raro, nas alminhas do Colmeal.

Estas alminhas, foram arranjadas haverá uns quatro anos, por João Casimiro Vicente, que, para tanto, recolhe as esmolas. Caso se verifiquem excedentes, entrega-os aos mordomos dos santos da localidade.




 - Alminhas, ao lado das anteriores, sendo uma espécie de capelinha com as paredes em vidro, a proteger uma imagem tridimensional de Nossa Senhora de Fátima. Foram mandadas construir, em 2011, por António Martins, natural da Malhada e residente no Colmeal, em cumprimento de uma vontade da sua esposa Maria Antónia Cerdeira, já falecida.

Também diferentes na intenção com que foram construídas, mas alminhas na apresentação e na forma, incluem-se neste levantamento por fazerem parte do mesmo espírito de devoção e fé.



QUINTA DE BELIDE

Alminhas situadas na Assentada de Belide, à beira da estrada que liga o Rolão a Fajão.

São as alminhas em forma de capela ou alpendre maiores que encontrámos na freguesia, com os seus bancos ao comprido, a convidarem à oração e ao repouso, agora perturbado pelo ruído pastoso das eólicas, que varrem o céu e o sossego da serra. Conforme inscrição na própria estrutura, foram construídas em cumprimento de promessa, em 1959, por Bernardo Gomes Monteiro, conhecido por Bernardo Cebola, por ser de uma terra da Pampilhosa da Serra com esse nome. Negociava em carvão.

O painel em azulejo representa Nossa Senhora do Carmo, desta vez com o menino do seu lado direito e também ele coroado. A presença solícita dos anjos a intercederem pelas almas envoltas em chamas persiste.

Para além do painel das almas, existe na parede direita do interior da capela uma imagem do Santo do nome do construtor, S. Bernardo, também em tons de azul. No canto inferior esquerdo desta imagem pode ver-se a inscrição “OUTEIRO ÁGUEDA” e, no canto inferior direito, “GOMES PORTO. PORTO – COIMBRA”.

São as únicas alminhas da freguesia com nome escrito nas próprias: “Alminhas de Belide”.






RIBEIRA DO SAIÃO

Alminhas situadas na Ribeira do Saião, na berma da estrada Colmeal-Góis, pouco antes da Candosa. Foram mandadas construir em cumprimento de promessa pelas melhoras do pai, por Álvaro Miranda, da Candosa, em terreno da família. São umas alminhas de capela, com os respetivos bancos ao comprido de ambos os lados. O painel é em azulejo, com a imagem de Nossa Senhora do Carmo, a azul e com pormenores diferentes das alminhas do Carvalhal e Belide. Apresentam a particularidade das duas cruzes desenhadas na estrutura, por cima do painel.





SOBRAL

- As alminhas, situavam-se no caminho Colmeal-Sobral, no Caratão da Fonte das Almas. Eram só uma cruz em madeira, espetada na ponta de uma parede, em memória de um homem que terá ali falecido. Diz o meu pai que já lá estavam quando ele era pequeno e pouco falta para ter cem anos. “Enquanto o senhor Carlos Miranda foi vivo e pôde, quando a cruz apodrecia fazia outra e ia lá colocá-la. Quando deixou de poder, perdeu-se tudo!” (Maria da Conceição).

- Havia umas outras alminhas no caminho para o Saião, construídas em memória de uma mulher que ali faleceu, vitimada por uma peste (raio). Eram duas que andavam ao mato, mas só ela é que foi atingida, quando estava a erguer o molho.


SOITO

- Alminhas em forma de oratório, localizadas ao fundo da povoação, na berma da estrada para Malhada e Fajão. São parecidas com as do Torgal, no Colmeal, divergindo por serem um pouco mais largas e baixas e pelas paredes, que são revestidas e não construídas a xisto. O painel em azulejo e tons de azul representa também a imagem de Nossa Senhora de Fátima.

Estas alminhas foram construídas na sequência da abertura da estrada entre o Soito e a Malhada, pelo que terão cerca de quarenta anos. Foram feitas por Manuel de Carvalho, do Colmeal e mandadas construir por Abel Nunes de Almeida, do Soito, que teve a intenção de substituir umas que existiam na antiga estrada entre Colmeal e Soito. Situavam-se na primeira curva a seguir à ribeira do Soito, num sítio ainda hoje chamado “Almas”. Eram umas alminhas de alpendre em xisto, que teriam, segundo uns um painel em madeira, segundo outros, a atual imagem da Nossa Senhora de Fátima.



 - Terão existido umas outras alminhas na povoação, junto a um chafariz.

Terminada esta descrição sumária do estado da arte das alminhas no Colmeal, reitero o pedido de correções e aditamentos, com vista à preservação desta memória de todos nós. Alterando ligeiramente o pedido dos necessitados de antigamente, alminhas do Colmeal, “pelas almas de quem lá temos” …!


Lisete de Matos


Açor, Colmeal, 13 de junho de 2013

2 comentários:

Anónimo disse...

- Tive oportunidade de ver, em fotografia, o painel das tais alminhas de alpendre, que existiram na Póvoa da Lomba, Carvalhal. É um painel simplesmente fabuloso e comovente. Agradeço muito à Cecília Barata Monteiro a sensibilidade da sua preservação e partilha.

- Não sei sobre outras, mas as alminhas do Colmeal já foram reparadas, conforme estava prometido pelo seu construtor, José Nunes. Agradeço, enquanto colmealense e defensora da preservação do património.

Lisete de Matos
Açor, Colmeal

Anónimo disse...

Agradeço, muito sensibilizada, este levantamento de património. Divulgando-o, decerto estimulará a sua preservação, o que nos enriquece a todos - é a memória dos nossos antepassados, o conhecimento e a compreensão dos seus sentimentos e preocupações.
Bem-haja!
Deonilde Almeida (Colmeal)