quinta-feira, 14 de março de 2013

Sabores da Aldeia




Vêm-nos à memória os cheiros suaves da terra, da urze do monte, do fumo da lareira, sentimos no rosto as carícias do orvalho da manhã, a frescura da brisa que vem da serra e que, por vezes é cortante como lâminas, outras suave como mãos de dama macias e cândidas.

Recordamos as jaculatórias das matinas rezadas brevemente e os terços repetidos e cadentes depois dos toques das Trindades sentimento profundo e crença inabalável no Além e no culto à Virgem Santa Maria, aquela mãe que nos acalenta a esperança de uma vida melhor desde o nascimento até à morte, sentimos a fé na multidão de santos e anjos que nos acompanham na existência e por quem invocamos nas horas menos boas da vida ou nas trovoadas: “santa Bárbara bendita que no Céu está escrita com devoção e água benta nos livre desta tormenta”.

Ouvimos o crepitar suave da lenha que estala no braseiro de pedra, o ranger dos carros de bois que passam na rua feita de pedra que canta, escutamos o pulsar da terra, o chiar das alheiras sobre o braseiro, escutamos o suave tostar da grossa fatia de trigo que aloura na ardência do lume para ser regada com fio de azeite ou ainda com fatia de unto salgado ou carne gorda curtida.

Inalamos o aroma suave das sopas que lentamente se cozinham nos lares de pedra onde o lume aceso com a caruma ou carqueja estala, fazendo melodias gritantes de sabedoria milenar e de apelo ao apetite.

Sentimos saudades das carícias da avó que nos ensinava as cantigas que já ninguém canta e as ladainhas corridas e populares: “com Deus me deito, com Deus me levanto, São José na cabeceira, Santa Maria de dianteira e mais os anjos da guarda, Jesus Cristo me proteja a vida inteira…”, o santo nome de Deus todo o dia nas suas bocas pedindo protecção.

Salivamos ao folhear as páginas de doces tradicionais, e na memória o Natal salta com os aromas de mel, canela e limão nas travessas fundas afogadas de arroz doce e aletria, montanhas de rabanadas regadas com vinho fino, os mexidos feitos de pão seco enriquecidos com amêndoas e nozes e uvas passas e pinhões.

Perdemo-nos nas romarias às divindades da Terra, protectoras de todo o mal e delícia pantagruélica nas mesas de piqueniques em toalhas aos quadrados ou de linho estendidas pela relva ou mesa de granito, as condessas de palha recheadas de bolinhos de bacalhau e o arroz de forno embrulhado em folhas de papel de jornal.

Temos neste livro memórias e saudades de muitas coisas vividas, outras que gostaríamos de ter vivido, sentimos falta do que não tivemos e do que tivemos e perdemos. Existe neste livro sabedoria tanta e tamanha que em cada receita ressalta a vida, em cada página pedaços de vivência e a capacidade do Homem em superar as adversidades da natureza.

Constroem-se pontes de desejos para o passado da nossa imaginação, mas que ainda hoje é real. Abrem-se as portas à procura de uma terra que já nos parece tão longe e irreal.

É um livro que nos faz sonhar com o pão saído do forno a lenha, quente e a fumegar, partido com as duras mãos e saboreado com sofreguidão, comido com mel ou azeite… ou apenas e somente com a deliciosa sensação de degustar uma vez mais a sabedoria que nos é servida.

Depois o nosso olhar perde-se nas imensas fotos e testemunhos de um mundo que queremos perpetuar, como as nossas histórias de meninos que pedíamos, ou que gostávamos de ter pedido, vezes sem conta, para que nos fossem contadas…

…Era uma vez uma aldeia muito escura, feita de xisto, mas que tinha uma luz imensa vinda de uma certa luz de candeia que, quando acesa, iluminava a alma de quem lá morava e irradiava tanta, mas tanta luz, que mesmo os que estando longe, muito longe, se a não viam, a sentiam e tinham vontade de ir ao seu encontro… Aldeias do Xisto feitas dessa pedra negra e de tantas estórias e receitas que o tempo não apagou e que nos traz e nos dá a lição da vida em suaves garfadas e colheradas de doçura e ternura, como a malga do caldo adubado com fio de azeite que ilumina e sacia a nossa alma.

Chefe Hélio Loureiro

in Sabores da Aldeia, Edição ADXTUR – Agência de Desenvolvimento

Não resistimos a transcrever na íntegra o excelente prefácio deste livro que além de sabores, nos transmite saberes antigos e nos confidencia memórias das tradições que constituem a nossa matriz cultural. Tentaremos em breves apontamentos futuros dar-vos a conhecer “o que se comia, quando se comia e porque se comia” retirando desta obra pedaços de saber que possam enriquecer o nosso conhecimento.

Felicitamos todos aqueles que contribuíram para a excelência deste livro, a Carta Gastronómica das Aldeias do Xisto. Bem-haja!

A. Domingos Santos


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