segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Ao Artur



Fiquei feliz por saber que finalmente, outros olhos e outros olhares poderão admirar a tua forma de arte.

Que bom é quando a memória individual (e a tua é prodigiosa) desperta a nossa memória colectiva! Na precisão, na minúcia, no desvelo e amor que colocaste em cada peça, está uma sincera homenagem às nossas raízes; espelham o quotidiano mas, sobretudo, a lida e o suor dos nossos avós e dos nossos pais.

A primeira vez que admirei as tuas peças (ainda no humilde espaço de uma lojinha), viajei, por momentos, aos tempos da minha infância, em que visitava o Colmeal e, vieram-me em fugazes minutos, todas as doces lembranças de uma época que não volta: os aromas pungentes e evocativos do passado – o cheirinho do pão lêvedo, da broa da tia Céu (mulher aparentemente dura mas que derretia qual manteiga quando se tratava de acolher os seus e nos enchia de mimos) acabadinha de cozer no forno, um irmão gémeo daquele que tu retratas (aquela bôla de bacalhau e cebola era para mim o supremo manjar dos deuses); o cheirinho a queijo fresco, feito do leite que eu, por graça, ajudara a tirar das cabrinhas do querido tio António Freire, ”bebe minha menina, bebe que vem quentinho e é melhor que o da cidade”; o cheirinho efervescente da compota ainda borbulhante na caçarolinha; o cheirinho das passas de uva em cacho, penduradas no tecto de madeira antiga que, desde então, decoram o meu imaginário.

Ao ver a “tua” escolinha, recordei as minhas esporádicas incursões à escola do Colmeal, de sacola aos ombros - eu menina da cidade, ávida de brincar inocentemente aos professores e alunos (a vocação já cá estava) com os meninos da aldeia; ao ver a “tua” capelinha, senti as badaladas do sino, chamando para o terço e, desejei os efémeros momentos em que, entalada entre o casaco da minha doce mãe e o xaile preto de lã da querida tia Céu (o ar gelado da capela, cortava o ar e os meus tenros ossos de menina), me assolava, por entre a cadência das Avé–Marias e dos Pai-Nossos, uma tal modorra que, em breve o meu sonho se transformava num quadro algures entre o Renascimento e o Surrealismo: anjinhos barrocos banhavam-se nas águas do Ceira, de brincadeira com faunos da floresta e os meus amiguinhos da aldeia e vinham-me do fundo dos tempos, as gargalhadas cristalinas das crianças, o chocalhar das cabrinhas da ti Maria da Fonte, o tilintar e o trote da mula do ti Fernando do Soito... Avé- Maria, Cheia de Graça... Santa Maria, Mãe de Deus... Avé Maria... E, ao ritmo dolente da reza, eu continuava a cochilar e, no espaço do meu sonho, o cheiro a círios de igreja e a água-benta, vinha agora misturar-se com os gulosos odores dos coscorões ainda quentinhos de minha mãe (que maravilhosa doceira eras, minha querida!), da tigelada tostadinha no barro negro, em forno de lenha, do aromático arroz-doce... Era uma noite domingueira de Verão, daquelas em que a lua nos enche a alma e o suor é sinónimo de alegria e lazer; ao longe, não muito longe, o som endiabrado e brejeiro da concertina e seu tocador; vultos rodavam vertiginosamente no largo principal da aldeia e, no centro, bem no centro do meu olhar, duas fadas, vestidas de chita às flores e saias de balão, rodopiavam voluptuosamente... Eu não lhes via os rostos, tão pouco lhes sabia os nomes mas, sentada no alpendre da tia Céu (que saudades, meu Deus, daquela casa!) alguém me disse ao ouvido “são as manas Hortense e Natalina”. E eu pensava “quando fôr grande quero um vestido daqueles e quero dançar assim”. A concertina tocava e as minhas “fadas” bailavam sofregamente, quase até à exaustão como quem agarra a vida, não fosse aquela fugir-lhes! Havia que aproveitar pois daí a poucas horas, voltava a crueza do dia (o deus Chronos não perdoava) e a labuta esperava-as sem contemplações: apanha a lenha, corta o mato, ordenha as cabras... limpa o suor, rega a horta, semeia a terra, recolhe o gado... limpa o suor, apanha a lenha, corta o mato, ordenha as cabras... limpa o suor, rega a horta, semeia a terra, recolhe o gado, limpa o suor...limpa o suor...

Vês Artur, foste tu o culpado destas minhas divagações curtas mas tão saborosas, memórias de um tempo que me foi muito caro. Uma vintena de páginas não chegaria para descrever sentimentos, cores, cheiros, sensações...

Obrigada também por isso!

Provavelmente não estarei presente na tua exposição mas, prenuncio, melhor, tenho a certeza que vai ser um sucesso de arromba seja pela tua criatividade e engenho, seja pelo despojamento e humildade em partilhares com todos nós a tua obra.

                                                                              A amiga e colega na UPFC,
                                                                              Paula Ramos

4 comentários:

Manuela disse...

Que emoção ao ler estas linhas! Quem na infância passava as suas férias no Colmeal não pode deixar de reviver o que a Paula descreve e o "Arturito" nos relembra com os seus maravilhosos trabalhos!Faço minhas as palavras da minha amiga e desejo o maior sucesso na exposição. Continua a surpreender-nos!

Diana Ramos disse...

Bravo Mamã! <3 Devias escrever mais vezes. É sempre um verdadeiro prazer ler os teus textos. Parabéns ao Artur por tão interessante e merecida exposição!

Soito aldeia preservada disse...

Muitos parabéns ao Artur pelo seu excelente trabalho que nos diz muito a todos, tanto aos que viviam e Lisboa e se deslocavam à nossa Freguesia em períodos de férias, como é o caso da Paula, como a mim e a muitos outros, que como o Artur, ali nascemos e vivemos a nossa infância e parte da juventude.

Como já disse em outras oportunidades, para além do trabalho manual de pormenor de que resultam peças de alta perfeição, esta obra revela uma excelente memória visual e uma enorme sensibilidade e interesse por tudo aquilo que caraterizou, num passado bem recente, as nossas memórias coletivas, da Freguesia do Colmeal e de toda a nossa zona.
Mas o texto da Paula, revela também, no meu modesto entendimento de uma pessoa ligada mais aos números, uma excelente qualidade literária, que nos trás à memória muitas vivências do quotidiano das nossas aldeias de algumas décadas, bem como da generosidade das pessoas que ali viviam.

Por isso termino dando os parabéns ao artista já conhecido que é o Artur e à promissora escritora que é sem dúvida a Paula Ramos.

António Duarte

Artur Fonte disse...

Quero agradecer a todos os amigos que quer pessoalmente ou através do blogue me deram os parabéns pela exposição, o que me deixa muito feliz e com vontade de continuar.
Para a Paula, também o meu muito obrigado e os meus parabéns pelo belo texto que escreveste.