quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Uma cachola na Serra do Açor (Tarrastal – Góis)



Mesmo sabendo o que a palavra cachola quer dizer no Alentejo e no Ribatejo, ficaremos surpreendidos se no Tarrastal nos convidarem para uma cachola e não nos avisarem de que ali, cachola é uma festa, uma refeição verdadeiramente pantagruélica e cheia de surpresas.

Tudo se passa à hora do almoço e começa com uma sopa feita da suã, que ali é a tira que cobre a barriga e os ossos do peito do animal, que ficaram em sal, de véspera, e se cozem em água com um chouriço de carne e uma farinheira do ano anterior. Ao caldo resultante, juntam-se uns pedacinhos de batata, ou um ou outro cano de macarrão e uns talos de couve troncha. Esta sopa serve-se em terrina.

Depois, vêm as carnes e os enchidos que serviram para a sopa e mais couve troncha e batatas cozidas no mesmo caldo. É aquilo que se chama o cozido.

A seguir, vêm ao mesmo tempo para a mesas os torresmos, o sarrabulho e os acompanhamentos que se sugerem.

Na receita de torresmos que se segue e, ao contrário do que acontece em terras da Beira Alta, onde os torresmos se fazem de carne bastante gorda (barrigada ou entremeada) e contrariando sobretudo os torresmos alentejanos, totalmente gordos, na Serre do Açor, os torresmos fazem-se do que o porco tem de melhor e mais magro para dar: lombo e lombinhos.

Os torresmos são acompanhados só com azeitonas ou grelos de nabos ou vagens de favas sem o grão formado cozidas e temperadas com azeite, vinagre e alho miudinho. Mas quem quiser pode experimentar os acompanhamentos de que os naturais mais gostam: batatas cozidas salteadas no molho dos torresmos ou… arroz de bacalhau, feito e servido em tacho de barro preto.

As sobremesas também são tentadoras: tigelada, aletria ou arroz doce, sonhos, pão-de-ló e o mais que a dona da casa tiver gosto em fazer e mostrar aos convidados.

Não é preciso acrescentar que tudo isto é acompanhado por vinho tinto da região, que corre abundantemente.

Adaptado de Festas e Comeres do Povo Português
Editorial Verbo, 1999

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