sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

... EM BUSCA DO “MANUSCRITO”


Era uma vez... o Baile das Bruxas na Serra da Aldeia-Velha !
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Lembram-se? E lembram-se também do “Tribunal à Meia-Noite”?
- Ah! Não leram....Pois é, meus amigos, se vos apetecer, entender o que, sobre este assunto, mais temos para contar, terão de voltar atrás... e ler as “Estórias do Colmeal”, intituladas: “BRUXAS” e “TRIBUNAL À MEIA- NOITE”.
... Agora, que já releram!... e se bem se recordam... o BAILE já não era Baile, mas sim um TRIBUNAL, e o seu Juíz supremo - a Rainha de um dos Povos Celtas que habitaram a nossa Beira, (e, neste caso, a Serra do Açor) não “fez a coisa por menos”, e decidiu mandar castigar o Braien (era este o seu nome). O “destemido caminhante da Serra” apanhou, portanto, uma grande tareia, ao espreitar o Tribunal (seguro de estar a observar o dito Baile).
Entrementes, encontrámos, no sótão, um excerto de um poema em língua Gaélica: “Cúirt an Mheán-Oíche”. Muito curiosas e com alguma imaginação, concluimos que estes versos tinham algo a ver com as lendas das nossas Serras - seriam como que um elo de ligação entre os nossos Contos e os Contos da tradição Celta!!
Um “link”, como se diz na moderna tecnologia!!!!!
Ora vejamos. Assim rezam os versos:

... A bheith deich faoi thrí gan chuibhreach céile
… A mhná na múirne! Is rún liom íoc air.
Cúnamh!... beirigí air! Tóg é!
A Úna! Gairim tú! Faigh dom corda!
Cá bhfuil tú, a Aine? Ná bi ar iarraidh!
... Báigí san bhfeoil gach corda ‘is snaidhm air
…Le tóin, le tiarpa Bhriain gan trua
Tóg na lámha agus ardaigh sciúirse
... Gearraigí domhain é, níor thuill sé fábhar
Agus bainigí an leadhb ó rinn go sála.

Que é “como quem diz”*:
Aos Trinta anos e sem Esposa!... Oh Mulheres! Forçá-lo a “pagar” eu decidi... Acudam! Abeira-te dele! Agarra-o!... Ò Una! Chamo-te! Agarra numa corda!... Qu’é de tu, ó Aine? Nã te arredes!... Dá-lhe com a corda, até em sangue ficar... Sem piedade, dá ao Bhriain uma grande surra... Atirai-o para a lenha, dai-lhe com o chicote... Deixai-o com golpes profundos, ele não merece piedade... E da cabeça aos pés, arrancai-lhe a pele!

Na verdade, o Braien levou mesmo uma valente sova!!!!

... “Ninguém queria casar. Todos amavam demais a sua liberdade de solteirões. Todos gostavam de bailar, cantar e divertir-se nas festas das Aldeias.
Mas… Casar, não! Compromissos? Não! Família, não!”
- Era este o sério problema debatido no Tribunal, pelas damas da Corte, naquela noite.
... “Não se realizavam casamentos, nem baptizados (estavam todas muito zangadas). Não estava assegurada a descendência de tão nobres antepassados. E aqueles jovens e outros, já menos jovens – o que faziam? Dançar, divertir-se e... Família? Nada. Não prestavam atenção à beleza de tão belas damas e moças dos Povoados, que continuavam solteiras, sem constituir Família”.
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E isto sabemos, porque lemos outras partes do Poema “Cúirt an Mheán-Oíche”. Como o conseguimos obter, é o que vos vamos contar, a seguir...
... Sentíamo-nos esmagadas pela curiosidade...Estávamos determinadas. Decididas. Tínhamos de ir em frente, queríamos encontrar o Poema completo.
– Iríamos lá – Sim, às Terras dos Celtas, porque não?...E metemo-nos a caminho:
Claro, tínhamos à nossa espera, as nossas amigas Fiona e Coll, que se ofereceram de imediato, a ajudar-nos a resolver tão difícil tarefa. Elas lá estavam em.... CULLODEN.
“Guid Forenoon”, cumprimentaram-nos, na sua língua de origem, ou seja “Bom Dia”.
De Culloden, partimos para Urquhart, sempre à beira de rios e lagos maravilhosos. Não tínhamos palavras para descrever o que de tão belo a Natureza por ali deixou. Seguimos para Glomach Donan, onde as nossas amigas pensavam estar a “chave do mistério”, ou melhor dizendo, a totalidade do Manuscrito, ou ainda... o POEMA completo.
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Nada conseguimos. Bem perguntámos a amigos e conhecidos...- ”talvez em Dunvegan, bem no fim da Ilha”, disse um deles. Mas não foi aí, ainda, que encontrámos o nosso objectivo. Então a Coll – que já tinha estado de visita à Serra do Açor, e, naturalmente ao Colmeal – lembrou-se de uma Serra, na Terra de origem da sua família: GLENDALOUGH – um Lugar com muitas semelhanças à Serra do Açor – e assim o descreveu:



- as suas misteriosas montanhas; os rios, lagos e riachos - as ovelhas a pastar nas suas margens;
- a profusão de árvores, com a sua folhagem luxuriante, ostentando os mais variados tons de verde;
- as cores até da terra: ora castanho-ocre, ora castanho esverdeado, como se coberta por um “manto aveludado” de musgo;
- o mato esplendoroso, com as suas flores multicolores – um apelo às belas abelhas.



Para encontrarmos este Lugar, teríamos de nos deslocar a outra Ilha - EIREANN.
Entusiasmadas e decididas como estávamos, não voltaríamos atrás, e lá fomos em direcção a Baile Átha Cliath. Aí chegadas, tínhamos mais um amigo à nossa espera – o Petrik – que nos conduziu por Sráid Anroi, Faiche Stiabhna e Sráid Ui Chonaill, onde apanhámos outro transporte para TEARMANN DÚLRA GHLEANN DÁ LOCH, que é como quem diz, a Reserva Natural de Glendalough.


Quando aqui chegámos, ficámos verdadeiramente paralizadas. Em êxtase, perante tal Beleza... (a Coll tinha razão): ali, a Natureza deixava-nos sem fala!
Sim, estavam ali as nossa raízes – não admira que os antigos Celtas tivessem escolhido (para ficar) a Serra do Açor – claro… era igual...
Caminhámos....caminhámos...pelos montes, vales, junto ao rio – tirámos fotos e mais fotos – tínhamos que mostrar tamanha Beleza, aos nossos amigos (que tinham ficado em Portugal).



Até o Sol... (estávamos no princípio da Primavera) nos presenteou com os seus raios mais quentes – raros ali, onde o frio se faz notar durante quase todo o ano.




Lá ao fundo, um Cemitério com as suas campas com cruzes Celtas... a Igreja em ruínas, várias casas e castelos em ruínas – ruínas que tinham muito para contar.
Cansadas já, resolvemos apressar-nos até à Aldeia mais próxima.

Chegámos a GLEN DÁ LOK - “De certeza, que ali alguém teria conhecimento sobre o tal Poema” - afirmavam as nossas amigas.
Já dentro da Aldeia, cansadas e com sede, entrámos no primeiro café. Queríamos um Sumo de Fruta. Mas não, não foi um sumo de fruta que nos ofereceram. Presentearam-nos com uma bela “Paint”, como dizem naquelas terras – uma PAINT bem fresquinha, com um “sabor dos Deuses”...com uma cor dourada indescritível, com uma espuma... ...
À nossa volta, um ambiente de alegria contagiante. Todos cantavam, dançavam, riam e falavam em voz alta. Subitamente fez-se silêncio absoluto. Numa mesa cheia de pessoas sorridentes, alguém se levantou e começou a falar umas palavras estranhas... mas não tão estranhas assim. Parecía-nos que já conhecíamos algumas...

Sim! Era isso! Pareciam fazer parte dos versos, que tínhamos tão bem guardados!!!
Ouvimos até ao fim. Um final cheio de gargalhadas e boa disposição.
Fiona e Coll levaram-nos até ao grupo, e aí integrámo-nos no convívio divertido, na alegria generalizada....
É verdade!! É verdade!! Aquele habitante de Glen Dá Lok tinha estado a declamar o dito POEMA!!!! “CÚIRT AN MHEÁN-OÍCHE”!!
E ali, nos disseram, então:

_O Poema é contado, ao longo de vários séculos,
transmitido de geração em geração,
e ainda hoje, muitos habitantes daquelas Serras o declamam, (divertidos) de cor e salteado.

Logo pedimos a uma das pessoas simpáticas que conhecemos, para nos ditar o poema e...
Assim... o conseguimos na íntegra! (75 pag.!).

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Posteriormente também nos informámos de que, Estudiosos, Professores de Literatura Gaélica muito escreveram sobre o referido Poema.
Supõe-se que a sua origem remonta ao séc XVIII.
Falaram-nos em nomes, ali, famosos, como:
T.Mac Lópuis, J. O’Daly’s, P. O’Brien, P. Ó Foghludha, D. Ó h-Uaithne, F. O’Connor, “Mediae Noctis Consilium”, “Cúirt an Mheadhóin Oidhche”, “Cúirt an Mhean-oíche”, Smurfit Leabharlann, Trinity Leabharlann e outros mais.

Confessamos que não estudámos a matéria.
Gostaríamos de lá voltar – às Serras de GLENDALOUGH - para dar início a uma Pesquisa - um Estudo a sério. Acreditámos apenas nos nossos amigos.
Mas... mesmo assim... mais tarde, tentaremos contar-vos, outras partes do Poema - agora que o temos na sua totalidade.

Cúirt an Mheán-Oíche conta, afinal, uma história bem divertida. Chega até, a ser cómica e também romântica - é considerada por muitos, uma Poesia de Amor da Idade Média. É muito popular naquelas Ilhas. Transmite, por outro lado, assuntos muito sérios: retrata os problemas sociais da Época, sentidos, especialmente, nos ambientes rurais.
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A “explicação” dos versos, por nós apresentada, baseou-se na leitura de uma tradução em Língua Inglesa e, na utilização de palavras, que nos lembramos, serem faladas pelos Antigos do Colmeal.
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Beijinhos e Abraços das amigas
Ana, Badana, Rabeca, Susana

1 comentário:

Anónimo disse...

Que lindas fotografias! Mas que lugar é este? É místico! As escritoras foram mesmo lá? A história apresentada é uma viagem em si mesma. Foi um prazer ler. Espero pela próxima.